Os Motivos

Conquanto não existam publicações oficiais italianas senão a partir de 1876, estatísticas contemporâneas indicam que as regiões do Piemonte, da Lombardia e do Veneto forneciam, nos anos de 1869 a 1872, 70% de toda emigração italiana. A parte setentrional da Itália contribuía para expulsar a população, sobretudo a camponesa, em busca de melhores condições de vida. A partir de 1880, especialmente de 1886 a 1893, verifica-se uma considerável emigração em caráter permanente de Bassano del Grappa, a parte meridional do Treviso, Verona, Padova, e Rovigo. Em algumas províncias a evasão atingia 6% e 7% da população total, subindo a 12 e até 18% em certas comunidades, em algumas das quais permaneceram apenas de 60 a 70 habitantes. O ano de maior êxodo foi 1878. Parte para o exterior 75000 venetos em 1891 e 40000 em 1893.

A superpopulação, por si mesma, não explicaria o impulso emigrantista. Nem este era espontâneo, o abandono da terra de nascença por meio de emigração nunca é espontâneo, mas, ao contrário, resulta de condições de existência difíceis de suportar, e da exploração do negócio da emigração por diversos interesses.

Convém destacar dois fatos : o primeiro, comum a toda a Europa, foi o grande crescimento demográfico, experimentado entre 1815 e 1914, que fez com que, nesse período, a população do velho continente saltasse de 180 para 450 milhões de habitantes, o que provocou a emigração para outros continentes de 40 milhões de pessoas – 85% das quais para as Américas.

O segundo foi o processo de unificação, que em ambos os países foi tardia: em 1870 na Itália, em 1871 na Alemanha.

Os problemas com os quais se defrontavam os jovens italianos eram imensos. Um estado novo sem o sentimento de nacionalidade, os governantes ainda privados de experiências. E muitíssimas coisas a fazer: escolas, estradas, hospitais, saneamento. E depois harmonizar 7 exércitos, 7 línguas, 7 moedas, 7 constituições, 7 modos diferentes de ver e de aplicar a justiça.

A malária matava ainda 40.000 pessoas por ano (também Cavou morreu de malária). Só nos anos de 1884-1887 a cólera matou 55.000 pessoas. A estatística oficial fala em cerca de 400. 000 mortos por ano. Metade desta cifra é formada de crianças menores de 5 anos, que acabavam no cemitério porque não havia sabão, havia pouca higiene e o médico era inacessível.

No momento da unificação a Itália, Roma tinha 180.000 habitantes, Milão 240.000, Turim 200.000, Gênova 150.000, Palermo 180.000, Nápoles, já então, extraordinária e miserável, era a segunda cidade da Europa: a sua população chegava a 430.000 habitantes.

Nesse quadro de pobreza e atraso, que é descrito por autores italianos contemporâneos, inclusive em relatórios e publicações oficiais, salientam-se outros dados denunciadores do injusto regime econômico-social que forçava a emigração. Um desses era o analfabetismo.

Era evidente que o abandono da pátria, recentemente unificada não era só pela superpopulação, mas principalmente pela miséria.

Povo sem História é um povo sem presente e sem futuro.